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entrevista.com Leonel Moura

A arte é sempre um reflexo do seu tempo
e muitas das vezes anda mesmo à sua frente

Artista plástico portugês, é internacionalmente (re)conhecido pelo seu trabalho, no qual associa a Inteligência Artificial e a Robótica à Arte. Considerando o seu contributo para a inovação na criação artística, foi convidado pela Comissão Europeia para Embaixador Português do Ano Europeu da Criatividade e Inovação 2009. Adepto incondicional da criatividade que resume como sendo a sua vida, Leonel Moura explica-nos um pouco da sua arte.

O Leonel Moura é um artista plástico (re)conhecido internacionalmente e que tem apostado na robótica e na inteligência artificial como modo de expressão artística. Pode dizer-nos como lhe veio à ideia ligar a ciência e a tecnologia à Arte?

Vivemos rodeados de tecnologias e de ciência. Estamos na era das novas tecnologias. Não faz por isso muito sentido continuar a pintar à maneira do século XIX ou mesmo do XX. A arte é sempre um reflexo do seu tempo, e muitas das vezes anda mesmo à sua frente. Como artista quero fazer uma arte do meu tempo, ou seja, do tempo dos computadores, da Internet, dos telemóveis, dos robôs, das viagens no espaço, dos transplantes, da manipulação genética…

Do vasto conjunto de projectos que realizou destacam-se o robô pintor e o robô poeta. O que são?

Nos últimos anos, a investigação sobre Inteligência Artificial desenvolveu-se bastante. É agora possível dotar algumas máquinas com capacidades de raciocínio e decisão. Perante isto pensei: se as máquinas já conseguem pensar e decidir o que fazer, então porque não conceber máquinas capazes de criarem obras de arte? A criatividade é uma componente da inteligência, por isso, porque não gerar uma criatividade artificial? Comecei pelos robôs pintores, pequenas máquinas que criam desenhos e pinturas originais a partir da sua própria interpretação dos traços e das cores. Estes robôs criam a arte deles e não a minha. São autónomos, tomam decisões e, também, fazem asneiras. O que às vezes resulta muito bem. A seguir aos pintores criei um robô capaz de escrever palavras e com elas compor poemas aleatórios. Escreve e mistura as palavras de uma maneira que suscita várias interpretações em quem vê e lê. Como qualquer poema feito por um humano.

Os robôs podem ser artistas?

Poema do Robô ISU

Uma das componentes deste meu trabalho é precisamente questionar a ideia de arte. Uma pessoa que pense que só os humanos podem fazer arte achará que as pinturas ou poemas dos meus robôs não são nada. Mas considerando que a criatividade, e portanto aquilo a que chamamos arte, está presente por todo o lado (basta pensar nos ninhos dos pássaros ou nas colmeias que são construções altamente criativas), então o que realmente importa saber é se estes desenhos têm alguma originalidade ou são meras reproduções mecânicas. Eu demonstro que são mesmo originais e resultam de uma composição artística autónoma.

A Arte é uma questão de inteligência? Qual o lugar para o sentimento?

A inteligência e a emoção não devem ser separadas como se fossem coisas opostas. A inteligência tem muito de emocional. Mas, no caso da arte, a emoção está sobretudo do lado do observador, daquele que contempla a obra. Uma obra pode ser feita com muita emoção, mas depois não despertar quase nenhuma nos espectadores; ao invés, uma obra pode ser feita de modo muito racional e matemático e despertar uma enorme emoção nos outros. Veja-se os quadros de Mondrian por exemplo.

O ISU, que é o seu robô poeta, compõe poemas desenhando letras, palavras e manchas de cor. Poderemos dizer que isso é Poesia?

Robô ISU

No século XX surgiu uma tendência importante na poesia ligada ao Surrealismo que pretendia fazer poemas sem consciência. O autor devia tentar ao máximo não procurar o sentido ou exprimir qualquer ideia ou sentimento. Pretendia-se assim, por um lado, revelar o então chamado subconsciente, e, por outro, deixar que fossem os espectadores a fazer a sua própria interpretação. Os surrealistas usavam vários métodos. Num deles metiam várias tiras com palavras dentro de um saco e depois iam tirando ao acaso cada tira e assim construíam um poema.
O meu robô poeta faz mais ou menos a mesma coisa. A originalidade aqui é ser uma máquina autónoma, e com capacidade de escrever, a fazê-lo.

Em 2007, criou, em Alverca (Vila Franca de Xira), o primeiro Robotarium do Mundo. Pode explicar-nos o que é um Robotarium e o que lá podemos encontrar?

Como o nome indica, trata-se de uma espécie de zoo para robôs. Nesta obra trato os robôs como se fossem pequenos animais ou insectos metidos numa gaiola. A fonte de alimentação destes “bichos” é a energia solar e por isso andam de um lado para o outro durante o dia e à noite ficam a dormir. São muito primitivos.
À medida que os robôs se forem desenvolvendo iremos olhar para eles da mesma forma como olhamos para as espécies animais e um dia serão tão inteligentes e autónomos que se tornarão nossos companheiros, amigos, e, claro está, às vezes também inimigos. Estamos a criar um novo ser. O meu Robotarium anuncia esse futuro.

Porque é que escolheu os insectos?

Chamo-lhes, por vezes, robôs insectos porque são muito primitivos. Com a luz solar, através de painéis fotovoltaicos de pequena dimensão, é difícil conseguir energia suficiente para pôr uma máquina a fazer muitas coisas. Assim, eles movem-se, evitam obstáculos, alguns tentam ir para onde há mais luz e pouco mais. Mas são fascinantes, porque percebemos que esta é uma forma de vida artificial que irá desenvolver-se no futuro. Daqui a alguns anos, talvez décadas, teremos pequenos robôs por toda a parte e nem saberemos o que andam a fazer. Terão realmente a sua própria vida.

O Leonel Moura é também o Embaixador português do Ano Europeu da Criatividade e Inovação 2009. Como é que isso aconteceu?

A Comissão Europeia declarou 2009 como Ano da Criatividade e da Inovação. Para o promover convidou algumas personalidades europeias da cultura, do espectáculo, da ciência, do meio universitário, num total de 27, ainda que não seja um por país. Fui um dos convidados. É naturalmente uma honra e também o reconhecimento do meu trabalho

Robô RAP

O que é ser embaixador de um Ano Europeu, e deste ano em particular?

Tenho participado em muitas conferências e eventos em Portugal e na Europa. Por iniciativa do Coordenador Nacional do Ano da Criatividade, o Professor Carlos Zorrinho, colaborei no concurso Criar2009 que recolheu mais de 150 ideias criativas por todo o país. Esse concurso mostrou que quando existe uma oportunidade as ideias inovadoras aparecem. A vasta maioria das pessoas, e sobretudo os jovens, são muito criativas, e muitas das vezes só falta algum estímulo para passarem das ideias à sua exposição e desenvolvimento.
Por outro lado, a sociedade precisa muito de novas ideias. É assim que se avança. Ideias práticas, mas também outras loucas. Não há que ter receio das ideias loucas. Muitas das grandes invenções nasceram de coisas que toda a gente achou ser impossível fazer ou um grande disparate. A verdadeira inovação é sempre inesperada e controversa.

Costuma dizer que promover a criatividade é a sua vida.Porquê? O que é, na sua opinião, ser criativo?

Ser criativo é fazer uma coisa que não existia antes, acrescentar algo à evolução da cultura e do conhecimento humano. Pode ser uma coisa simples como melhorar um produto ou extraordinária como gerar uma nova visão do mundo. Tanto foi criativo o inventor do clipe de papel, o norueguês Johan Vaaler, como Charles Darwin que revolucionou o nosso entendimento da vida. E, embora este último, do ponto de vista da história do conhecimento humano tenha dado um contributo avassalador, o clipe também dá muito jeito quando se quer juntar folhas de papel de forma expedita.
Como artista, a minha vida é criar coisas novas e se possível marcar de algum modo a história da arte e da criatividade em geral. Nesse sentido, não faço outra coisa senão pensar a criatividade, como ela se gera, quais os seus mecanismos, como se pode desencadear. Um artista é, nesse sentido, um especialista em criatividade.

Por vezes temos tendência a colocar num molde fechado a Arte. O que significa este termo, para si?

Tal como tanta outra coisa, a arte define-se sobretudo pela sua história. Existe de facto uma história com milhares de anos de coisas e actos que consideramos pertencerem ao domínio da arte. O que significa também que se trata de um processo em constante evolução. Os artistas estão sempre a inventar novas formas de fazer arte e é isso que dá uma tremenda dinâmica e se torna tão atraente para a generalidade das pessoas.
Neste momento, existe um movimento, do qual faço parte, que propõe que a arte deve colaborar com a ciência e a tecnologia para criar novas obras e novas visões. Juntar a arte com a ciência é abrir novas portas à criação artística e ao conhecimento científico. É uma parceria com enorme potencial e que provavelmente irá marcar a cultura deste século XXI que ainda agora começou.

Imagens cedidas por Leonel Moura
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