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entrevista.com José Milhazes

1989 – 2009: 20 anos de mudanças para a democracia

Jornalista e um dos mais destacados correspondentes portugueses na Rússia, José Milhazes vive há já mais de três décadas em Moscovo. O seu gosto pela História levou-o a realizar investigações históricas inéditas nos arquivos soviéticos. Através do seu trabalho jornalístico, assistiu e cobriu os principais eventos ligados à democratização dos países da Europa do Leste, entre os quais, a queda do Muro de Berlim. Razões de sobra para nos explicar o que significou este momento, considerado como um dos mais marcantes do século XX e da nossa História.

Na sua pele de jornalista, mas também de historiador, assistiu a um dos períodos mais marcantes da História recente: a queda da “Cortina de Ferro” e a formação de novas nações no Leste da Europa. Pode explicar-nos o que foi a Guerra Fria e o que significou o seu fim?

A Guerra Fria consistiu na transferência do confronto entre as duas superpotências: Estados Unidos e União Soviética, para o território de outros Estados, principalmente na luta por zonas de influência no chamado Terceiro Mundo. Isto aconteceu, porque, com o aparecimento de poderosas armas como as bombas atómicas ou bombas de hidrogénio, tornou-se impossível o confronto directo entre soviéticos e norte-americanos, pois ele poderia significar o fim da civilização na Terra. A União Soviética não soube gerir os seus recursos económicos, financeiros e intelectuais, daí ter perdido a competição em toda a linha. O fim da Guerra Fria significou a queda de muitos muros e barreiras, o início de grandes esperanças e ilusões. Deu um impulso decisivo ao processo de globalização, desmontou o sistema bipolar de relações internacionais, que, infelizmente, ainda não foi substituído por um sistema mais perfeito e harmonioso.

Tendo estado estes anos todos do “outro lado”, teve a oportunidade de ver de perto as mudanças que decorreram na sequência da queda do Muro de Berlim. Quais foram as maiores alterações?

A maior alteração foi, sem dúvida, a queda de regimes totalitários comunistas nos países do Leste da Europa e o aparecimento da possibilidade dos seus povos de escolherem o seu destino. Isto tornou realidade sonhos como a possibilidade de visitar outros países, ter contacto com outras culturas, etc., etc. Sem a queda do Muro de Berlim não seria possível, por exemplo, o aparecimento, a nível global, da Internet.
Por outro lado, a queda do Muro de Berlim criou expectativas até hoje não realizadas e processos negativos no campo social europeu. Se a existência de regimes comunistas no Leste da Europa e noutras regiões do mundo obrigava os dirigentes dos países ocidentais a realizarem uma ampla política de protecção social, bem mais eficaz do que a apregoada pelos chamados “países socialistas”, hoje, o desaparecimento do “fantasma do comunismo” deu origem à realização de políticas liberais e ultraliberais que prejudicam seriamente os direitos dos que trabalham. Esfuma-se o “estado social europeu” se não forem tomadas medidas capazes de garantir um desenvolvimento sustentável na Europa.

Em 2009, festejaram-se os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Na sua opinião, qual foi o significado deste acontecimento para a Europa?

A queda do Muro de Berlim foi um dos mais importantes acontecimentos da História da Europa, e com um sinal claramente positivo. Foram dias em que os europeus acreditaram na união do continente com base na democracia, no respeito pelos direitos humanos, na prosperidade.
Em 2004 deu-se o grande alargamento da UE aos países da Europa Central e Oriental (Estónia, Eslováquia, Eslovénia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia e República Checa), completado em 2007 pela entrada da Bulgária e da Roménia. O que significou para estes países passarem a fazer parte da União Europeia?
Esses países encararam a adesão à União Europeia como meio de se aproximarem dos padrões sociais, económicos e políticos dos membros mais desenvolvidos dessa organização. Para alguns deles, nomeadamente as antigas repúblicas soviéticas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, tratou-se também de um passo com vista a protegerem-se da forte vizinha, a Rússia, de garantirem a sua independência.

Quais foram as consequências desta integração para a União Europeia?

As consequências desta integração para a UE ainda estão longe de serem de todo evidentes. O ritmo de alargamento tem sido acelerado, o que dificulta a tomada de decisões atempadas e concertadas em campos vitais como são, por exemplo, a política externa ou a política de segurança.
A Europa não se manifesta a uma só voz nessas áreas, prejudicando, por exemplo, a sua capacidade de diálogo com a Rússia.
São necessários novos mecanismos de integração e de coordenação de políticas. O Tratado de Lisboa pode abrir novos caminhos se não se afogar nas contradições existentes entre os vários membros.

Como é que a Rússia acompanhou todo este processo definido por muitos como a reunificação do continente europeu?

O alargamento da UE, enquanto união económica e política, não provoca, aparentemente, alergia no Kremlin, o mesmo não acontecendo se a UE enveredar também pela via da integração e do reforço militares. A atitude para com o alargamento da NATO, enquanto estrutura militar transatlântica, mostra que Moscovo receia o poder militar europeu e o aumento da cooperação com os Estados Unidos.
Na realidade, Moscovo, ao mesmo tempo que diz saudar a integração europeia, tenta manter relações especiais com países influentes na UE, nomeadamente com a Alemanha, França e Itália, tentando realizar a política do “dividir para reinar”. Isso é particularmente evidente no campo energético, onde o Kremlin faz todos os esforços para não permitir a realização de projectos europeus como o da construção do gasoduto Nabucco, que poderá transportar gás da Ásia Central até à Europa, ladeando o território russo.
Devendo falar a uma só voz no diálogo com a Rússia, a União Europeia tem, ao mesmo tempo, de esforçar-se por aprofundar as relações com o poderoso vizinho em todos os campos, por criar mais canais de diálogo e interacção de forma a aproximar esse país e, quem sabe, a longo prazo, integrar a Rússia próspera e democrática na UE.

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