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Testemunho

A Queda do Muro de Berlim | Anja Wartig

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No dia 9 de Novembro de 1989 tinha 13 anos.
Acabava de jantar com os meus pais quando a minha mãe nos chamou a atenção para uma notícia que a pivô do Aktuelle Kamera [Telejornal] estava a dar: “segundo fontes oficiais as fronteiras passarão a estar abertas ainda esta noite. De acordo com as declarações de Günter Schabowski não serão mais necessários vistos nem pedidos de autorização para atravessar as fronteiras…”
Não queríamos acreditar! Os berlinenses e todos os que estavam relativamente próximos do Muro de Berlim precipitavam-se junto do mesmo para ver se era verdade. Eu estava a 200 km. Mas lembro-me da ansiedade que se instalou em casa. Seria possível? Seria mesmo assim?
Assim foi de facto, mais de 20 000 pessoas atravessaram nessa mesma noite as fronteiras para Berlim Ocidental.
Isto era uma novidade incrível. Antes dessa noite, só podíamos visitar países que fizessem parte do chamado Bloco Soviético [Hungria, Checoslováquia, Polónia, Roménia, Bulgária, Jugoslávia, União Soviética]. Para os outros países, não podíamos viajar para fora da RDA [República Democrática Alemã, conhecida como Alemanha do Leste] sem autorização prévia do Estado. E mesmo isso era difícil de conseguir. A minha mãe teve de esperar 15 anos para visitar as suas primas que moravam do outro lado do muro. Se isto não era igual a estar preso…
É claro que não foi tudo só nesse dia. Em Dresden, a minha cidade, vimos crescer a contestação já desde o verão. Em Agosto, com a abertura da fronteira entre a Hungria (um dos poucos países que podíamos visitar) e a Áustria, muitas pessoas tentaram fugir para o Ocidente, já que o problema não se colocava entre a fronteira da Áustria com a RFA [República Federal Alemã, conhecida como Alemanha Ocidental]. Em Setembro, 4 000 alemães do Leste tinham procurado asilo na Embaixada da RFA em Praga (República Checa), outra capital para a qual podíamos viajar. Lembro-me da agitação que este acontecimento provocou em Dresden. Vendo que a Alemanha Ocidental tinha dado asilo a esses 4 000 refugiados, outros alemães do Leste tentaram a mesma sorte. Ora, os comboios para Praga partiam da minha cidade. O Governo tentou parar este movimento, bloqueando a via férrea. Mas já era tarde, mais de 17 000 pessoas estavam no caminho para Praga. A violência aumentou, os confrontos eram diários, o que fez com que todos nós tomássemos consciência da gravidade da situação e saíssemos para a rua a manifestar o nosso desagrado. Recordo-me de ter participado numa destas manifestações com o meu pai. Quase fomos presos pela Volkspolizei [“polícia do povo”]!
A luta pela liberdade de viajar rapidamente se transformou numa contestação constante das políticas do Governo. Cada vez mais pessoas desciam à rua em todo o país e o Estado e as suas forças de segurança não conseguiam conter este movimento. A polícia deixou de intervir nestas manifestações. Lembro-me da minha surpresa ao ver tanta gente nas ruas da minha cidade (amigos, vizinhos, etc.) a lutar e dizer o que realmente pensavam.
O meu irmão Tom, que tinha 18 anos, nesta altura, já não vivia connosco, mas lembro-me que foi dos primeiros de Dresden a ir para Berlim, logo no dia seguinte ao acontecimento histórico. Mais uma notícia bombástica!
Desde o verão que ele participava em todas as manifestações. Vários dos seus amigos já tinham fugido pela fronteira da Hungria. Recordo-me de ouvi-lo dizer que estava farto de viver assim, que queria liberdade! Liberdade para viajar, para pensar, para viver a sua vida como bem entendia, sem o controlo da Stasi [Segurança política do Estado].
No dia 10 de Novembro seguiu para Berlim. Lembro-me dele telefonar-nos a contar como estava tudo a acontecer. Naquela altura não havia telemóveis, ligava-nos de uma cabine telefónica a pagar ao destinatário (antepassado do Kolmi). Contava-nos como as ruas se tinham enchido de gente a festejar, que tinha falado com centenas de pessoas que nunca tinha visto na vida e que, com sorrisos estampados na cara, ainda duvidavam de que isto pudesse estar mesmo a acontecer. Às perguntas da minha mãe: “onde dormes? E tens comido?” respondia que os berlinenses do Ocidente davam comida a quem vinha e distribuíam bebidas. Quanto a dormir, não havia tempo. Logo se descansaria. Era altura de descobrir ruas e avenidas diferentes das nossas, repletas de lojas (do nosso lado havia poucas), onde passavam carros de marcas que desconhecia, onde havia côr e se respirava liberdade.
Voltando à noite de 9 de Novembro, e passados já 20 anos, ainda me lembro do que senti. Uma pergunta assombrava-me, “E agora?” Até aos 13 anos aprendi a ter medo do Ocidente, ensinaram-me que ele era perigoso. Na escola, na televisão, nos livros e mesmo em casa, sempre tinha ouvido que tudo o que vinha de fora (do Ocidente) era mau e que o sistema capitalista ao contrário do nosso sistema social só trazia miséria humana.

Mas seria mesmo assim? Porque é que tantas pessoas queriam fugir para o outro lado, deixando casa, trabalho e família? Seria o Ocidente esse bicho papão? Uma coisa era certa, pela primeira vez poderia ver com os meus próprios olhos esse mundo e tirar as minhas próprias conclusões!
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